Metodologia

Termografia com RTK: o método que rastreia cada anomalia até o pixel bruto

O padrão da indústria costura as imagens térmicas num mapa e mede o defeito no borrão. A Kira inverte a ordem: voa alinhado à fileira com RTK de 1–2 cm e ancora cada anomalia no frame radiométrico original.

Eng. Rodrigo Luiz Abrão·Publicado em 02 jul 2026·8 min de leitura
Termograma aéreo de fileiras de módulos fotovoltaicos com células em hotspot visíveis individualmente
Voo a 17 m alinhado à fileira: com GSD de 2,3 cm/px, as células em hotspot aparecem individualizadas no frame bruto, sem costura. Acervo Kira Energia

Quase toda inspeção termográfica de usina solar hoje termina no mesmo lugar: um ortomosaico — dezenas de milhares de fotos térmicas costuradas num único mapa da usina. É bonito de ver e útil para navegar. O problema é o que a costura faz com o dado no caminho.

Ao interpolar valores de pixel entre quadros que se sobrepõem, a costura térmica borra a verdade radiométrica: hotspots são suavizados, células mortas entram numa média com as vizinhas saudáveis, e o operador acaba medindo um defeito num quadro que o sensor nunca capturou de fato. Você diagnostica a partir de um pixel que foi calculado, não medido. Para um laudo que precisa sustentar garantia, sinistro ou transação, isso é frágil.

A metodologia da Kira inverte a ordem de operação. Em vez de partir do mapa costurado para achar o defeito, ela parte do frame bruto e usa o mapa apenas como referência espacial. O que torna essa inversão possível é o RTK.

A âncora: RTK com precisão de 1–2 cm

Um drone com GPS comum flutua de 2 a 5 metros em relação à posição real — o suficiente para não se saber com certeza a qual módulo uma foto pertence. Com correção RTK (Real-Time Kinematic), essa incerteza cai para 1 a 2 centímetros. Na prática da Kira, a correção vem de um serviço NTRIP em nuvem (RTKdata), em formato RTCM 3.2, sobre múltiplas constelações e no referencial SIRGAS 2000 — sem precisar montar uma base física a cada usina.

Sem esse georreferenciamento preciso, é impossível ligar com confiança um módulo do mapa macro à imagem original de alta resolução que o capturou. Com ele, cada anomalia tem endereço: o frame exato, a faixa de pixels e o waypoint ancorado que a produziram.

EquipamentoEspecificação
DroneDJI Mavic 3 Enterprise (variante térmica Mavic 3T) com módulo RTK
Sensor térmicoRadiométrico 640×512, IFOV de 1,33 mrad
Correção RTKNTRIP em nuvem (RTKdata), formato RTCM 3.2 — sem necessidade de base física em campo
ConstelaçõesGPS, GLONASS, Galileo e BeiDou
ReferencialSIRGAS 2000 (alinhado ao Brasil)
Precisão de posição1–2 cm no plano horizontal, contra 2–5 m do GPS comum de drone

O voo: alinhado à fileira, a 17 metros

O mercado costuma voar a cerca de 40 m de altura, em grade, e deixar a costura resolver o resto. A Kira gera um plano de voo a partir do ortomapa RGB de referência: o software segmenta as fileiras de módulos e emite um KMZ com waypoints na linha de centro de cada string, altura acompanhando o relevo e gimbal travado na inclinação do painel.

Parâmetro de vooValor
Altura de voo17 m acima dos módulos, acompanhando o relevo fileira a fileira
Velocidade2 m/s sobre os painéis; 12 m/s nos vãos sem módulo
GSD térmico2,3 cm/px — 24% abaixo do teto de 3 cm/px da IEC
Sobreposição frontal80%, concentrada nas fileiras de módulos
Cadência1 quadro a cada 2 segundos, disparado apenas sobre os módulos
GimbalTravado na inclinação do módulo ou em nadir (−90°)
RotaKMZ alinhado à string, com waypoints na linha de centro da fileira

Voar devagar sobre o módulo e rápido no vão não é economia de tempo — é o que garante frames nítidos exatamente onde o diagnóstico acontece.

Termograma aéreo em resolução de célula mostrando o padrão térmico de módulos fotovoltaicos
A 2,3 cm/px, o padrão térmico de cada célula é legível no dado original — a base para uma medição de ΔT que se sustenta. Acervo Kira Energia

Por que o voo atende à IEC TS 62446-3

A norma de termografia FV pede resolução geométrica suficiente para cobrir cada célula com pelo menos 5×5 pixels, o que se traduz num teto de GSD térmico de 3 cm/px. O voo a 17 m com o sensor 640×512 do Mavic 3T entrega 2,3 cm/px — uma margem de 24% abaixo desse teto. Não é folga por acaso: é a diferença entre enxergar o módulo e enxergar a célula, discutida em detalhe no artigo sobre o que a IEC 62446-3 exige de um laudo.

O resultado é dado aderente à norma sem as distorções de costura que contaminam as plataformas tradicionais. Cada defeito rastreia até o frame térmico original do Mavic 3T, a posição de captura ancorada por RTK e a janela radiométrica de 5×5 pixels por célula exigida pela IEC.

Da captura ao laudo, sem perder o rastro

A prova de conceito: usina Fortlev

O método foi exercido de ponta a ponta numa planta de aproximadamente 2 MWp, onde cada um dos 3.192 módulos foi indexado contra o frame bruto e não costurado que o capturou. É a demonstração concreta da inversão: do dado original para o mapa, e não o contrário — com a cadeia de rastreabilidade preservada módulo a módulo.

Esse PoC é uma coisa; o histórico da engenharia responsável é outra, maior: mais de 500 MWp inspecionados e 22.500 anomalias classificadas ao longo da operação da Kira. O PoC prova o método; o histórico prova a escala.

Validação independente

A metodologia não é autoafirmação de marketing. Ela foi documentada de forma independente pela RTKdata, provedora do serviço de correção usado nos voos, que descreveu o pipeline técnico completo — do plano de voo alinhado à string à rastreabilidade radiométrica de cada defeito. O relatório está público: rtkdata.com.

Perguntas frequentes

Isso não é só mais uma inspeção com drone?

Não. A diferença é o método. O mercado costuma voar a cerca de 40 m em grade e costurar tudo num ortomosaico. Aqui o voo é a 17 m, alinhado à fileira, com GPS RTK de 1–2 cm de precisão e GSD térmico de 2,3 cm/px — quase o dobro da resolução do padrão comum. E o dado bruto nunca é descartado.

Por que RTK muda o resultado?

Sem georreferenciamento preciso, é impossível ligar com confiança um módulo do mapa macro à imagem original de alta resolução que o capturou. O RTK é a âncora: com 1–2 cm de precisão, cada anomalia no mapa aponta para o frame térmico exato, não para um pixel interpolado.

O método é validado por alguém de fora?

Sim. A metodologia foi documentada de forma independente pela RTKdata, provedora do serviço de correção usado nos voos. O relatório descreve o pipeline de ponta a ponta, do plano de voo alinhado à string à rastreabilidade radiométrica de cada defeito.

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