Quase toda inspeção termográfica de usina solar hoje termina no mesmo lugar: um ortomosaico — dezenas de milhares de fotos térmicas costuradas num único mapa da usina. É bonito de ver e útil para navegar. O problema é o que a costura faz com o dado no caminho.
Ao interpolar valores de pixel entre quadros que se sobrepõem, a costura térmica borra a verdade radiométrica: hotspots são suavizados, células mortas entram numa média com as vizinhas saudáveis, e o operador acaba medindo um defeito num quadro que o sensor nunca capturou de fato. Você diagnostica a partir de um pixel que foi calculado, não medido. Para um laudo que precisa sustentar garantia, sinistro ou transação, isso é frágil.
A metodologia da Kira inverte a ordem de operação. Em vez de partir do mapa costurado para achar o defeito, ela parte do frame bruto e usa o mapa apenas como referência espacial. O que torna essa inversão possível é o RTK.
A âncora: RTK com precisão de 1–2 cm
Um drone com GPS comum flutua de 2 a 5 metros em relação à posição real — o suficiente para não se saber com certeza a qual módulo uma foto pertence. Com correção RTK (Real-Time Kinematic), essa incerteza cai para 1 a 2 centímetros. Na prática da Kira, a correção vem de um serviço NTRIP em nuvem (RTKdata), em formato RTCM 3.2, sobre múltiplas constelações e no referencial SIRGAS 2000 — sem precisar montar uma base física a cada usina.
Sem esse georreferenciamento preciso, é impossível ligar com confiança um módulo do mapa macro à imagem original de alta resolução que o capturou. Com ele, cada anomalia tem endereço: o frame exato, a faixa de pixels e o waypoint ancorado que a produziram.
| Equipamento | Especificação |
|---|---|
| Drone | DJI Mavic 3 Enterprise (variante térmica Mavic 3T) com módulo RTK |
| Sensor térmico | Radiométrico 640×512, IFOV de 1,33 mrad |
| Correção RTK | NTRIP em nuvem (RTKdata), formato RTCM 3.2 — sem necessidade de base física em campo |
| Constelações | GPS, GLONASS, Galileo e BeiDou |
| Referencial | SIRGAS 2000 (alinhado ao Brasil) |
| Precisão de posição | 1–2 cm no plano horizontal, contra 2–5 m do GPS comum de drone |
O voo: alinhado à fileira, a 17 metros
O mercado costuma voar a cerca de 40 m de altura, em grade, e deixar a costura resolver o resto. A Kira gera um plano de voo a partir do ortomapa RGB de referência: o software segmenta as fileiras de módulos e emite um KMZ com waypoints na linha de centro de cada string, altura acompanhando o relevo e gimbal travado na inclinação do painel.
| Parâmetro de voo | Valor |
|---|---|
| Altura de voo | 17 m acima dos módulos, acompanhando o relevo fileira a fileira |
| Velocidade | 2 m/s sobre os painéis; 12 m/s nos vãos sem módulo |
| GSD térmico | 2,3 cm/px — 24% abaixo do teto de 3 cm/px da IEC |
| Sobreposição frontal | 80%, concentrada nas fileiras de módulos |
| Cadência | 1 quadro a cada 2 segundos, disparado apenas sobre os módulos |
| Gimbal | Travado na inclinação do módulo ou em nadir (−90°) |
| Rota | KMZ alinhado à string, com waypoints na linha de centro da fileira |
Voar devagar sobre o módulo e rápido no vão não é economia de tempo — é o que garante frames nítidos exatamente onde o diagnóstico acontece.

Por que o voo atende à IEC TS 62446-3
A norma de termografia FV pede resolução geométrica suficiente para cobrir cada célula com pelo menos 5×5 pixels, o que se traduz num teto de GSD térmico de 3 cm/px. O voo a 17 m com o sensor 640×512 do Mavic 3T entrega 2,3 cm/px — uma margem de 24% abaixo desse teto. Não é folga por acaso: é a diferença entre enxergar o módulo e enxergar a célula, discutida em detalhe no artigo sobre o que a IEC 62446-3 exige de um laudo.
O resultado é dado aderente à norma sem as distorções de costura que contaminam as plataformas tradicionais. Cada defeito rastreia até o frame térmico original do Mavic 3T, a posição de captura ancorada por RTK e a janela radiométrica de 5×5 pixels por célula exigida pela IEC.
Da captura ao laudo, sem perder o rastro
- Plano de voo. O software lê o ortomapa RGB, segmenta as fileiras e emite o KMZ com waypoints por string, altura por relevo e gimbal travado.
- Missão e RTK. O piloto carrega o KMZ no DJI Pilot 2; o receptor conecta ao NTRIP por hotspot celular e aguarda o fix RTK (mantido em mais de 95% do tempo de captura).
- Captura. O drone segue a linha de centro da fileira, a 2 m/s sobre os módulos e 12 m/s nos vãos; o gimbal fica travado e o disparo só ocorre sobre os painéis.
- Indexação. Cada módulo é indexado contra o frame térmico bruto, não costurado, que o capturou.
- Medição. O ΔT de cada defeito remonta a um frame específico, uma faixa de pixels específica e um waypoint ancorado por RTK.
- Laudo. O ortomapa entra só como referência espacial no visualizador — nunca como fonte da verdade térmica.
A prova de conceito: usina Fortlev
O método foi exercido de ponta a ponta numa planta de aproximadamente 2 MWp, onde cada um dos 3.192 módulos foi indexado contra o frame bruto e não costurado que o capturou. É a demonstração concreta da inversão: do dado original para o mapa, e não o contrário — com a cadeia de rastreabilidade preservada módulo a módulo.
Esse PoC é uma coisa; o histórico da engenharia responsável é outra, maior: mais de 500 MWp inspecionados e 22.500 anomalias classificadas ao longo da operação da Kira. O PoC prova o método; o histórico prova a escala.
Validação independente
A metodologia não é autoafirmação de marketing. Ela foi documentada de forma independente pela RTKdata, provedora do serviço de correção usado nos voos, que descreveu o pipeline técnico completo — do plano de voo alinhado à string à rastreabilidade radiométrica de cada defeito. O relatório está público: rtkdata.com.
Perguntas frequentes
Isso não é só mais uma inspeção com drone?
Não. A diferença é o método. O mercado costuma voar a cerca de 40 m em grade e costurar tudo num ortomosaico. Aqui o voo é a 17 m, alinhado à fileira, com GPS RTK de 1–2 cm de precisão e GSD térmico de 2,3 cm/px — quase o dobro da resolução do padrão comum. E o dado bruto nunca é descartado.
Por que RTK muda o resultado?
Sem georreferenciamento preciso, é impossível ligar com confiança um módulo do mapa macro à imagem original de alta resolução que o capturou. O RTK é a âncora: com 1–2 cm de precisão, cada anomalia no mapa aponta para o frame térmico exato, não para um pixel interpolado.
O método é validado por alguém de fora?
Sim. A metodologia foi documentada de forma independente pela RTKdata, provedora do serviço de correção usado nos voos. O relatório descreve o pipeline de ponta a ponta, do plano de voo alinhado à string à rastreabilidade radiométrica de cada defeito.
